A osteomielite crônica é uma das condições mais frustrantes da prática clínica. Meses – às vezes anos – de antibioticoterapia e múltiplas intervenções cirúrgicas, com alta taxa de recidiva e deterioração progressiva do tecido ósseo. Quando o arsenal convencional falha, o que resta ao médico oferecer ao seu paciente?
A oxigenoterapia hiperbárica (OHB) surge como resposta fundamentada nesse cenário. Neste artigo, detalhamos por que a osteomielite é uma condição particularmente responsiva à OHB e o que a literatura científica documenta sobre seus resultados.
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O Que É Osteomielite e Por Que Ela Se Cronifica?
A osteomielite é um processo inflamatório agudo ou crônico do tecido ósseo, geralmente causado por bactérias piogênicas, sendo o Staphylococcus aureus o agente mais frequente. As vias de infecção são três: hematogênica (pelo sangue), por contiguidade (trauma, cirurgia, fratura exposta) ou como complicação de doença vascular periférica.
A osteomielite aguda, se não tratada adequadamente, evolui para crônica após seis semanas. Na forma crônica, o osso hipóxico e necrótico torna-se um ambiente resistente à ação dos antibióticos e à resposta imunológica convencional. A isquemia local reduz a pressão de oxigênio no tecido ósseo, comprometendo a função bactericida dos leucócitos e favorecendo a sobrevivência das bactérias dentro do próprio osso.
Por Que a OHB Faz Sentido Fisiológico?
Como a osteomielite está diretamente associada ao fluxo sanguíneo intraósseo reduzido, que causa queda na pressão de oxigênio, a OHB atua exatamente no ponto crítico da fisiopatologia. Ao elevar drasticamente os níveis de O₂ nos tecidos, ela reverte a hipóxia local e desencadeia uma série de efeitos terapêuticos:
- Efeito bactericida direto: o aumento da tensão de oxigênio exerce ação letal sobre microrganismos anaeróbicos e microaerofílicos.
- Potencialização de antibióticos: a OHB aumenta a atividade dos aminoglicosídeos por sinergismo, tornando-os mais eficazes no tecido ósseo hipóxico.
- Ação anti-inflamatória: reduz mediadores inflamatórios que perpetuam a destruição óssea.
- Angiogênese e neovascularização: estimula a formação de novos vasos sanguíneos no osso, restaurando gradualmente a oxigenação local.
- Proliferação de fibroblastos e colágeno: favorece a reconstrução do tecido de suporte ao redor do foco infeccioso.
O Que Dizem os Estudos?
A evidência clínica em osteomielite é robusta e consistente. Uma revisão sistemática conduzida por Goldman RJ (2009), referenciada pela Sociedade Brasileira de Medicina Hiperbárica (SBMH), concluiu que a OHB, associada à cirurgia e antibioticoterapia, pode levar à remissão em até 85% dos casos de osteomielite crônica refratária aos tratamentos habituais.
Dois estudos clínicos citados com frequência na literatura hiperbárica corroboram esse dado:
- Money et al.: em 40 pacientes com osteomielite crônica que não responderam ao tratamento anterior, 34 (85%) permaneceram clinicamente livres da doença após OHB adjuvante, cirurgia e antibióticos.
- Davis et al.: em 38 pacientes com perfil semelhante, a doença foi controlada em 34 (89%) após o mesmo protocolo combinado.
Revisão portuguesa publicada no Repositório da Universidade de Lisboa (2021) sistematiza esses achados com clareza: a OHB corrige a hipóxia local e, através de sua ação anti-inflamatória, anti-infecciosa, neoangiogênica e pró-cicatrizante, aumenta a taxa de sucesso do tratamento cirúrgico e antimicrobiano em casos de insucesso prévio.
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Protocolo Clínico Padrão
O protocolo estabelecido pela SBMH para osteomielite prevê:
- Osteomielite aguda pós-operatória: 30 a 60 sessões a 2,5 ATA.
- Osteomielite crônica: limpeza cirúrgica indispensável com retirada de tecidos inviáveis e coleta de material para cultura, seguida de OHB adjuvante, 30 a 60 sessões, dependendo da resposta clínica.
- A OHB deve ser iniciada o mais precocemente possível após o desbridamento cirúrgico adequado.
A terapia é reconhecida pela Resolução CFM nº 1.457/95 e coberta pela maioria dos planos de saúde para as indicações elegíveis, conforme a ANS (RN nº 211/2010).
OHB Não É Substituto, É Potencializador
Um ponto fundamental: a OHB não substitui a antibioticoterapia nem o desbridamento cirúrgico. Ela atua como terapia adjuvante, criando as condições fisiológicas, especialmente a oxigenação adequada, que permitem que cirurgia e antibióticos funcionem plenamente em um tecido que, de outra forma, seria refratário a ambos.
Para infectologistas, ortopedistas, cirurgiões vasculares e médicos que acompanham pacientes diabéticos com osteomielite, a OHB representa um recurso complementar que pode definir a diferença entre a preservação do membro e a amputação.
Conclusão
A osteomielite crônica refratária é uma condição de alto impacto clínico e social, com custo elevado tanto para o paciente quanto para o sistema de saúde. A oxigenoterapia hiperbárica, ao reverter a hipóxia intraóssea e potencializar os efeitos da cirurgia e dos antibióticos, oferece uma solução fundamentada em fisiopatologia sólida e respaldada por evidências clínicas consistentes. Instituições que incorporam a OHB ao protocolo de osteomielite ampliam significativamente suas taxas de resolução dos casos mais complexos.
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Referências Científicas
• Goldman RJ. Hyperbaric oxygen therapy for wound healing and limb salvage: a systematic review. PM R 2009;1:471-89.
• SBMH. A Oxigenoterapia Hiperbárica no tratamento da Osteomielite. sbmh.com.br.
• Trivellato S. Oxigenoterapia Hiperbárica no tratamento da Osteomielite. Hypermed.
• Repositório da Universidade de Lisboa. Efeito da oxigenoterapia hiperbárica na osteomielite crónica. 2021.
• SBMH. Protocolo de Oxigenoterapia Hiperbárica — Osteomielite Aguda e Crônica.
• Resolução CFM nº 1.457/95. ANS — Resolução Normativa nº 211/2010.