A compra de produtos estéticos pela internet aproximou do consumidor final substâncias que deveriam ser manipuladas apenas por profissionais habilitados. Um relato de caso publicado na revista Plastic and Reconstructive Surgery Global Open mostra o que pode acontecer quando um preenchedor facial é aplicado pela própria pessoa, e descreve como a oxigenoterapia hiperbárica (OHB) foi incorporada ao tratamento da complicação vascular que se seguiu.

O caso descrito pelos autores
O artigo, intitulado “Hyperbaric Oxygen for Ischemia Due to Injection of Cosmetic Fillers: Case Report and Issues”, é assinado por Henderson, Reilly e Cooper, da Universidade de Nebraska. Ele descreve uma mulher de 37 anos que aplicou em si mesma um preenchedor à base de ácido hialurônico nas duas têmporas.
Logo após a aplicação, a paciente apresentou perda auditiva no ouvido esquerdo, palidez na lateral esquerda do rosto e dor intensa. O atendimento inicial incluiu hialuronidase (enzima que dissolve o ácido hialurônico), pasta de nitroglicerina tópica e compressas mornas.
Sem melhora, ela procurou um pronto-socorro nove horas depois, já com sinais de alteração isquêmica na face e na região atrás da orelha esquerda. Isquemia significa redução do fluxo de sangue e, portanto, de oxigênio para o tecido. Uma angiotomografia da cabeça, exame de imagem que avalia os vasos, identificou oclusão de um ramo da artéria temporal superficial esquerda. O tratamento clínico envolveu enoxaparina, aspirina, dexametasona intravenosa, piperacilina/tazobactam e lidocaína intradérmica.
Como a oxigenoterapia hiperbárica entrou no tratamento
A paciente foi transferida para um serviço com estrutura de medicina hiperbárica para tratar a insuficiência vascular. Na oxigenoterapia hiperbárica, a pessoa respira oxigênio a 100% em ambiente pressurizado, conforme o protocolo definido pelo médico.
As sessões começaram cerca de 15 horas após o início do quadro. Segundo o relato, foram seis sessões no total, realizadas duas vezes ao dia:
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as duas primeiras a 3,0 ATA (atmosferas absolutas, unidade que expressa a pressão dentro da câmara) por 90 minutos;
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as quatro seguintes a 2,4 ATA, também de 90 minutos;
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com intervalos de ar a cada 30 minutos, recurso de rotina para aumentar a tolerância ao oxigênio.
Os autores relatam que, após três dias de tratamento, a paciente apresentou melhora visível na aparência, com redução importante da descoloração isquêmica, e a audição retornou ao nível basal. Nas avaliações de 4 e 12 meses, a evolução estética foi descrita como boa, e a própria paciente relatou que o resultado residual era praticamente imperceptível, exceto para ela mesma.
A perda auditiva e a hipótese levantada no artigo
Um ponto discutido pelos autores é a origem da perda auditiva. Sem exame audiológico formal, a causa exata permaneceu indefinida no caso. A hipótese apresentada é a de que a injeção possa ter comprometido artérias auriculares próximas à artéria temporal superficial, responsáveis por irrigar o ouvido médio e a membrana timpânica.
O artigo trata o episódio como exemplo do emprego da OHB tanto na isquemia arterial periférica quanto, potencialmente, na perda auditiva súbita. Os próprios autores observam que o conjunto de medicações administradas e o efeito do tempo também participaram da recuperação observada. Como se trata de relato de caso único, sem grupo de comparação, a descrição vale para a experiência dessa paciente e serve de referência clínica para situações semelhantes.
O alerta de saúde pública
Parte relevante da discussão não é clínica. Os autores chamam atenção para a facilidade com que preenchedores são adquiridos em fontes não regulamentadas, muitas vezes acompanhados de vídeos e tutoriais que estimulam a aplicação por pessoas sem formação. A recomendação apresentada no artigo é que os protocolos de manejo de complicações, incluindo a consideração da OHB, façam parte das orientações de cursos e treinamentos voltados a profissionais que trabalham com preenchedores.
Diante de dor intensa, palidez, alteração de cor da pele ou qualquer sinal de comprometimento vascular após um procedimento estético, a conduta é procurar atendimento médico imediatamente. O tempo entre o evento e o início do cuidado especializado é decisivo em quadros isquêmicos.
O lugar da OHB nesse tipo de complicação
Os autores posicionam a oxigenoterapia hiperbárica como parte de uma abordagem terapêutica mais ampla, e não como recurso isolado. Eles observam que os algoritmos tradicionais de manejo de lesões por injeção costumam não incluir a OHB, e defendem que ela seja considerada um adjuvante relevante nesse tipo de complicação vascular, com base em mecanismos já descritos na literatura: oxigenação de tecidos isquêmicos, redução de edema e promoção de angiogênese, que é a formação de novos vasos sanguíneos.
Esse raciocínio é o mesmo que orienta o uso da terapia em outras frentes do cuidado hospitalar, em que ela entra somando-se ao tratamento principal. Vale conhecer também como a oxigenoterapia hiperbárica funciona como tratamento adjuvante na prática infectológica e como ela tem sido empregada na recuperação após traumas graves.
Conclusão
O relato de Henderson, Reilly e Cooper documenta uma evolução favorável em uma paciente com isquemia facial após autoaplicação de preenchedor, tratada com medicação e seis sessões de oxigenoterapia hiperbárica. É um registro clínico que descreve a experiência dessa paciente e que, segundo os autores, sustenta a inclusão da OHB entre as opções a considerar diante de complicações vasculares por injeção. Para clínicas e hospitais, é mais uma frente em que a câmara hiperbárica se integra ao cuidado multidisciplinar, sempre sob indicação médica.
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Referências Científicas
• Henderson R, Reilly DA, Cooper JS. Hyperbaric Oxygen for Ischemia Due to Injection of Cosmetic Fillers: Case Report and Issues. Plast Reconstr Surg Glob Open. 2018;6(1):e1618. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5945814/
Conteúdo informativo. Não substitui avaliação médica; a indicação da oxigenoterapia hiperbárica é ato médico.