A preparação do Santos para o confronto decisivo contra o Palmeiras colocou um equipamento pouco convencional no centro das atenções do futebol brasileiro. Segundo reportagem do ge.globo, Neymar realizou na véspera do jogo uma sessão que combinou fisioterapia e oxigenoterapia hiperbárica, dentro da estratégia do departamento médico do clube para chegar à partida nas melhores condições físicas possíveis. O episódio não é isolado: ao longo da temporada, o atacante tem recorrido com frequência a esse recurso na estrutura do CT Rei Pelé.

O que acontece dentro de uma câmara hiperbárica
A câmara hiperbárica é um ambiente pressurizado no qual a pessoa respira oxigênio em concentração próxima de 100%, sob pressão superior à do nível do mar. Na oxigenoterapia hiperbárica (OHB), o protocolo é sempre definido pelo médico, incluindo pressão, duração e número de sessões.
O princípio físico é conhecido há muito tempo. A Lei de Henry descreve que a quantidade de gás dissolvida em um líquido é proporcional à pressão exercida sobre ele. Dentro da câmara, portanto, o oxigênio deixa de depender apenas do transporte pelas hemácias (os glóbulos vermelhos) e passa a se dissolver diretamente no plasma sanguíneo em quantidade muito maior do que em condições normais. Esse oxigênio dissolvido alcança, por difusão, regiões que recebem menos irrigação sanguínea, como tecidos em processo de reparo.
Vale registrar um detalhe pouco comentado: o efeito terapêutico não vem só do gás, mas da combinação entre oxigênio e pressão. É esse conjunto que sustenta a medicina hiperbárica desde suas origens no tratamento de acidentes de mergulho, campo que depois se expandiu para diversas aplicações clínicas.
Por que o esporte de alto rendimento se interessou pela técnica
Uma revisão publicada em Medicine and Science in Sports and Exercise descreve a OHB como tratamento consolidado em medicina, administrado geralmente em sessões diárias de uma a duas horas, com pressões entre 2,0 e 2,8 ATA conforme a indicação. O mesmo trabalho registra que a técnica é aprovada para 14 indicações médicas pela Undersea and Hyperbaric Medical Society e que, no contexto esportivo, lesões costumam ser abordadas ao longo de 3 a 10 sessões.
Os mecanismos que despertam interesse no esporte estão ligados à maior oferta de oxigênio aos tecidos:
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Modulação da resposta inflamatória após esforço intenso ou microlesões musculares.
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Suporte à regeneração tecidual, já que funções celulares de reparo dependem de oxigênio.
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Auxílio na percepção de recuperação entre partidas próximas, situação frequente em calendários concentrados.
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Apoio complementar em processos de reabilitação, quando prescrito por profissional habilitado.
Uma revisão sobre desempenho psicomotor publicada no Journal of Integrative Medicine observa que todos os processos sensório-motores envolvidos no planejamento e na execução de movimentos voluntários dependem do fornecimento de oxigênio e ficam prejudicados em estados de hipóxia. Esse é o racional fisiológico que aproximou a OHB da medicina esportiva.
O que a evidência já mostra e o que ainda falta
Aqui é preciso ser honesto com o leitor. Uma revisão narrativa publicada em Undersea and Hyperbaric Medicine em 2025 conclui que, embora estudos em animais associem a OHB a melhor cicatrização muscular após lesões de tecidos moles, os dados em humanos ainda são inconclusivos. Os autores consideram limitada a evidência para recomendar a terapia com o objetivo de acelerar a recuperação de atletas com lesões musculoesqueléticas e traumatismo craniano leve.
Um ensaio clínico randomizado e duplo-cego publicado em Frontiers in Physiology ilustra bem esse cenário. Vinte jogadores juvenis de elite, com idade média de 17,3 anos, foram submetidos a uma única sessão de 60 minutos de OHB ou a placebo após uma partida de 90 minutos. A sessão isolada não alterou de forma significativa os parâmetros de recuperação ou de desempenho, embora o grupo tratado tenha apresentado valores menores em um dos indicadores avaliados (HI) uma hora após a intervenção. Os próprios autores sugerem investigar sessões mais longas ou sequenciais.
Sinais promissores em protocolos repetidos
O contraponto vem justamente de estudos com aplicação continuada. Um ensaio randomizado de quatro semanas com 24 homens saudáveis, publicado no European Journal of Applied Physiology, testou OHB em baixa dose imediatamente após treinamento intervalado de sprint. Houve benefício sinérgico no desempenho anaeróbico, sem efeito nas medidas aeróbicas ou de recuperação. Os autores ressalvam que a amostra pequena limita a generalização.
Já um estudo publicado em Gait and Posture com atletas juniores do sexo masculino indicou que a oxigenoterapia hiperbárica leve, combinada ao treinamento, prolongou a fase entre o limiar anaeróbico e o ponto de compensação respiratória, faixa em que ocorre a maior parte das corridas de longa distância. Os autores apontam a estratégia como possível caminho para melhora do desempenho.
Em conjunto, esses achados desenham um quadro coerente: protocolos únicos tendem a produzir pouco efeito, enquanto séries repetidas e bem estruturadas mostram sinais mais promissores. É uma agenda de pesquisa aberta, não uma promessa fechada. Você encontra um panorama mais amplo em benefícios da oxigenoterapia hiperbárica para a saúde.
Uma tendência que ultrapassa as quatro linhas
O uso da OHB por atletas de elite não é novidade brasileira. Uma revisão publicada em Sports Medicine já relatava o emprego da técnica na recuperação da fadiga durante as Olimpíadas de Inverno de Nagano, além de efeitos sobre edema pós-lesão e remodelamento de ossos, músculos e ligamentos. O mesmo trabalho alerta para riscos associados ao oxigênio em excesso, como dano oxidativo, e defende administração segura e individualizada.
No Brasil, o movimento se repete entre clubes de ponta, como mostramos ao comentar que o Atlético-MG seguiu o caminho de Flamengo, Corinthians e Palmeiras ao investir em câmara hiperbárica. Em temporadas com decisões, eliminatórias e Copa do Mundo, a recuperação física deixou de ser coadjuvante nas estratégias de desempenho.
A indicação é sempre ato médico
Qualquer aplicação da oxigenoterapia hiperbárica exige avaliação e prescrição de profissional habilitado, com respeito a indicações, contraindicações e protocolos individualizados. No esporte, ela funciona como recurso adjuvante, associado à fisioterapia, ao controle de carga de treino e ao acompanhamento clínico contínuo, nunca como substituto de nenhum deles.
Conclusão
O caso de Neymar antes do duelo com o Palmeiras retrata algo maior do que uma rotina individual: a incorporação de tecnologia médica à preparação esportiva. A ciência ainda trabalha para definir os protocolos ideais em atletas, e os melhores resultados até aqui aparecem em séries de sessões, não em aplicações isoladas. Ao mesmo tempo, a OHB permanece uma terapia com mecanismo fisiológico bem compreendido, aprovada para 14 indicações médicas e utilizada há décadas com segurança quando conduzida em equipamentos adequados e sob supervisão profissional.
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Referências Científicas
• Câmara hiperbárica e fisioterapia: Neymar inicia preparação para jogo decisivo do Santos. ge.globo, 2026. https://ge.globo.com/sp/santos-e-regiao/futebol/times/santos/noticia/2026/08/31/camara-hiperbarica-e-fisioterapia-neymar-inicia-preparacao-para-jogo-decisivo-do-santos.ghtml
• Hyperbaric Oxygen Therapy in Sports Musculoskeletal Injuries. Medicine and Science in Sports and Exercise, 2020.
• Hyperbaric oxygen therapy for high performance athletes: a narrative review. Undersea and Hyperbaric Medicine, 2025.
• Effects of hyperbaric oxygen therapy on recovery after a football match in young players: a double-blind randomized controlled trial. Frontiers in Physiology, 2024.
• Synergistic effects of immediate post-sprint interval training low-dose hyperbaric oxygen on aerobic and anaerobic performance and recovery indicators: a four-week randomized controlled trial. European Journal of Applied Physiology, 2025.
• Effects of mild hyperbaric oxygen therapy for running performance in junior male athletes. Gait and Posture, 2024.
• Effects of hyperbaric oxygen therapy on human psychomotor performance: A review. Journal of Integrative Medicine, 2023.
• Hyperbaric oxygen as an adjuvant for athletes. Sports Medicine. PMID 16138784. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16138784/
Conteúdo informativo. Não substitui avaliação médica; a indicação da oxigenoterapia hiperbárica é ato médico.