A necrose avascular da cabeça do fêmur (NACF), também chamada de osteonecrose do quadril, começa de forma silenciosa: o suprimento sanguíneo daquela região da articulação diminui e o tecido ósseo passa a morrer progressivamente. Quando o diagnóstico demora, a consequência costuma ser dor intensa, perda de mobilidade e, em parte dos casos, indicação de cirurgias invasivas como a artroplastia do quadril. Nesse cenário, a oxigenoterapia hiperbárica (OHB) tem sido estudada como recurso adjuvante não invasivo, e um trabalho publicado na revista Undersea & Hyperbaric Medicine trouxe dados relevantes sobre função, dor e qualidade de vida.

O que é a necrose avascular da cabeça do fêmur
A NACF ocorre quando o fluxo sanguíneo para a cabeça do fêmur é interrompido ou reduzido, muitas vezes sem trauma direto na articulação. Entre os fatores de risco mais citados na prática clínica estão:
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uso prolongado de corticoides;
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consumo abusivo de álcool;
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diabetes mellitus;
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anemia falciforme.
O manejo varia conforme o estágio da doença. Pode incluir medidas conservadoras, como controle do peso, fisioterapia e tratamento da dor, e chegar a procedimentos cirúrgicos, entre eles a descompressão do núcleo ósseo e a substituição total da articulação. A decisão é sempre médica e individualizada.
O estudo publicado na Undersea & Hyperbaric Medicine
O trabalho de Chandrinou e colaboradores, publicado em 2020, acompanhou 73 pacientes com diagnóstico de NACF em Estágio I ou Estágio II segundo a classificação de Steinberg, uma escala que gradua a gravidade da osteonecrose do quadril a partir de exames de imagem. O protocolo de oxigenoterapia hiperbárica foi dividido em duas fases de 20 sessões cada, a 2,0 ATA (cerca de duas vezes a pressão atmosférica ao nível do mar), cinco vezes por semana, ao longo de aproximadamente cinco meses de seguimento.
Como os desfechos foram medidos
Para avaliar a evolução de maneira objetiva, os pesquisadores aplicaram quatro instrumentos consagrados na literatura:
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EQ-5D-5L: questionário de qualidade de vida relacionada à saúde.
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Harris Hip Score modificado (mHHS): escore que combina dor e função do quadril.
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MAHORN Hip Outcome Tool (MHOT): mede o impacto funcional da doença nas atividades diárias.
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Escala VAS: escala visual analógica de intensidade da dor, de 0 a 10.
Resultados relatados pelos autores
Ao longo das duas fases do protocolo, os quatro parâmetros apresentaram melhora estatisticamente significativa:
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a qualidade de vida (EQ-5D-5L) passou de média 56,4 pontos antes do tratamento para 78,9 pontos após a segunda fase;
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a função do quadril (mHHS) evoluiu de 43,6 para 72,4 pontos ;
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a intensidade da dor (VAS) caiu de 5,9 para 2,5 ;
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o escore MHOT subiu de 31,9 para 59,7 pontos .
Outro achado chamou atenção: entre os pacientes inicialmente classificados em Estágio II, parte foi reclassificada para Estágio I após o protocolo, com base em ressonância magnética. Isso sugere alteração estrutural favorável no tecido ósseo, e não apenas alívio de sintomas. Os autores concluíram que a oxigenoterapia hiperbárica foi bem tolerada e não prejudicou a qualidade de vida dos participantes, sem piora em nenhum dos parâmetros avaliados durante o acompanhamento.
O peso da evidência: limitações e o que ela já sustenta
É essencial ler esses números com o contexto correto. Trata-se de um estudo observacional prospectivo e não controlado, ou seja, sem um grupo de comparação que permita atribuir com certeza toda a melhora ao oxigênio hiperbárico. Os próprios pesquisadores apontam a necessidade de ensaios clínicos randomizados para consolidar as conclusões.
Ainda assim, o conjunto de evidências sobre o quadril é encorajador. Um estudo prospectivo e randomizado publicado na HIP International comparou o tratamento da síndrome de edema ósseo transitório da cabeça femoral com e sem oxigenoterapia hiperbárica: o grupo que recebeu OHB alcançou pontuação média WOMAC de 70,8 pontos em três meses, contra 56,4 no grupo tratado apenas com terapia farmacológica, e a ressonância magnética mostrou resolução do edema em 55,0% dos pacientes do grupo hiperbárico, contra 28% no controle. São condições distintas da NACF, mas apontam na mesma direção: pressão e oxigênio podem favorecer a recuperação funcional do quadril quando somados ao tratamento convencional.
No plano experimental, um trabalho publicado na Acta Orthopaedica Scandinavica avaliou ratos hipertensos espontâneos em crescimento tratados com oxigenoterapia hiperbárica a 2,8 ATA. No grupo tratado mais precocemente não houve evidência de osteonecrose, enquanto o grupo controle apresentou seis casos. Resultados em animais não se transferem automaticamente para humanos, porém ajudam a explicar o interesse científico pelo tema e sustentam a investigação clínica em andamento.
Por que o oxigênio importa no osso isquêmico
Na oxigenoterapia hiperbárica, o paciente respira oxigênio a 100% em ambiente pressurizado, conforme o protocolo definido pelo médico. Essa condição aumenta a quantidade de oxigênio dissolvido no plasma, o que ajuda a alcançar áreas com circulação comprometida, exatamente o problema central da osteonecrose. O mesmo raciocínio fisiológico aparece em outras aplicações adjuvantes já discutidas aqui no blog, como no apoio ao tratamento de infecções conduzido pelo médico infectologista e na recuperação de lesões em atletas.
Conclusão
A necrose avascular da cabeça do fêmur exige decisão rápida e acompanhamento próximo. O estudo publicado na Undersea & Hyperbaric Medicine não teve grupo controle, o que impede atribuir toda a melhora exclusivamente ao oxigênio hiperbárico e mantém em aberto a necessidade de ensaios randomizados. Essa ressalva, no entanto, não anula o que os dados já mostram: melhora estatisticamente significativa de dor, função e qualidade de vida em pacientes nos Estágios I e II da classificação de Steinberg, reclassificação de parte dos casos de Estágio II para Estágio I na ressonância magnética e boa tolerância ao protocolo, sem piora de nenhum parâmetro avaliado. A esse conjunto soma-se um dado de melhor nível metodológico: no estudo prospectivo e randomizado da HIP International, aplicado ao edema ósseo transitório do quadril, o grupo com OHB obteve escore WOMAC de 70,8 contra 56,4 do controle e resolução do edema em 55,0% dos casos contra 28%. Há, portanto, base científica consistente para discutir a oxigenoterapia hiperbárica como recurso adjuvante promissor no manejo do quadril isquêmico, sempre dentro de um plano terapêutico definido por médico. A Oxy Câmaras Hiperbáricas, fabricante brasileira de câmaras hiperbáricas monoplace, acompanha essa produção científica de perto e mantém equipamentos instalados em hospitais, clínicas e centros médicos em todo o Brasil.
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Referências Científicas
• Chandrinou A, Korompeli A, Grammatopoulou E, Gaitanou K, Tsoumakas K, Fildissis G. Avascular necrosis of the femoral head: Evaluation of hyperbaric oxygen therapy and quality of life. Undersea & Hyperbaric Medicine, 2020;47(4):561-569. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/348090031_Avascular_necrosis_of_the_femoral_head_Evaluation_of_hyperbaric_oxygen_therapy_and_quality_of_life
• Avascular necrosis of the femoral head: Evaluation of hyperbaric oxygen therapy and quality of life. Undersea & Hyperbaric Medicine. PMID 33227832. Disponível em: pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33227832
• Hyperbaric oxygen therapy for transient bone marrow oedema syndrome of the hip. HIP International (ano não informado na fonte). PMID 21462153. Disponível em: pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21462153
• Effect of hyperbaric oxygenation on femoral head osteonecrosis in spontaneously hypertensive rats. Acta Orthopaedica Scandinavica (ano não informado na fonte). Estudo pré-clínico em animais. PMID 1441949. Disponível em: pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/1441949
Conteúdo informativo. Não substitui avaliação médica; a indicação da oxigenoterapia hiperbárica é ato médico.
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