A recuperação de tecidos lesionados ocupa o centro das decisões em lugares muito diferentes, do departamento médico de um clube de futebol, como Palmeiras ou Santos, ao pronto-socorro que recebe vítimas de acidentes. Na ortopedia, a oxigenoterapia hiperbárica (OHB) já conta com ensaios randomizados, isto é, estudos em que os pacientes são distribuídos ao acaso entre tratamento e controle. Esses ensaios foram feitos em lesões por esmagamento e em necrose da cabeça do fêmur. Em um deles, 17 de 18 pacientes tratados com OHB como adjuvante alcançaram cicatrização completa.

Por que o oxigênio sob pressão interessa à ortopedia
Na oxigenoterapia hiperbárica, o paciente respira oxigênio a 100% em ambiente pressurizado, conforme o protocolo definido pelo médico. Bosco e colaboradores (2018) explicam que a pressão elevada faz mais moléculas de oxigênio passarem dos pulmões para o sangue. Assim, uma quantidade maior do gás fica dissolvida no plasma, a parte líquida do sangue, e chega aos tecidos ao redor.
No trauma grave de membros, a terapia é defendida como complemento à cirurgia por seus efeitos sobre o transporte de oxigênio para a periferia e sobre a necrose muscular causada pela falta de circulação. Também entram nessa lista a síndrome compartimental (aumento de pressão dentro de um grupo muscular que compromete a irrigação) e a prevenção de infecção, conforme descrevem Bouachour e colaboradores (1996).
Os mesmos autores italianos citados acima apontam que a OHB favorece a cicatrização de tecidos necróticos ao estimular a formação de novos vasos sanguíneos. O tratamento ainda ativa fibroblastos (células que produzem colágeno) e osteoblastos (células formadoras de osso).
Lesões por esmagamento: o ensaio publicado no Journal of Trauma
O estudo clássico da área foi publicado no Journal of Trauma em 1996. Trata-se de um ensaio randomizado duplo-cego (nem pacientes nem avaliadores sabiam quem recebia o tratamento ativo) com 36 pacientes com lesões por esmagamento nos membros. Eles foram alocados em até 24 horas após a cirurgia para um de dois grupos:
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Grupo OHB: oxigênio a 100% a 2,5 ATA (atmosferas absolutas, unidade de pressão) por 90 minutos, duas vezes ao dia, durante 6 dias.
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Grupo placebo: oxigênio a 21%, a mesma concentração do ar comum, a 1,1 ATA, no mesmo esquema de sessões.
Todos receberam o mesmo tratamento padrão, com anticoagulante, antibióticos e curativos. Os resultados favoreceram o grupo tratado com oxigênio:
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Cicatrização completa em 17 pacientes do grupo OHB contra 10 do grupo placebo.
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Novas cirurgias, como enxertos de pele, procedimentos vasculares ou amputação, em 1 paciente do grupo OHB contra 6 do grupo placebo.
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No subgrupo com mais de 40 anos e lesão de partes moles grau III (o nível mais grave de dano a pele, músculos e vasos), cicatrização em 87,5% dos tratados com OHB contra 30% no placebo.
Os pesquisadores também mediram a pressão transcutânea de oxigênio, um exame que estima a oxigenação da pele. Nos pacientes que cicatrizaram, esse valor no membro lesionado, medido em ar ambiente, subiu de forma significativa entre a primeira e a décima segunda sessão. Os autores concluíram que a OHB é um adjuvante útil nas lesões por esmagamento grau III em pacientes acima de 40 anos.
Necrose da cabeça do fêmur: dor menor e osso em recuperação
A necrose avascular da cabeça do fêmur ocorre quando o osso do topo da coxa, que se encaixa no quadril, perde irrigação sanguínea. Sem tratamento, pode evoluir para degeneração da articulação.
Ensaio duplo-cego no Journal of Arthroplasty
Camporesi e colaboradores publicaram em 2010 um ensaio randomizado duplo-cego com 20 pacientes em estágio Ficat II. A classificação de Ficat é uma escala de gravidade da doença, em que os estágios I e II correspondem às fases iniciais. Os participantes receberam 30 sessões em 6 semanas, com oxigênio sob pressão ou com ar comprimido.
No grupo OHB, a dor melhorou de forma significativa após 20 sessões, e a amplitude de movimento do quadril melhorou entre a vigésima e a trigésima sessão. Depois dessa fase, todos os pacientes do grupo controle puderam receber OHB, e o estudo seguiu como observacional. Sete anos depois, os participantes permaneciam substancialmente livres de dor, e nenhum precisou de artroplastia (prótese de quadril). A ressonância mostrou cicatrização radiográfica substancial em 7 de 9 quadris avaliados.
Efeito sobre a inflamação
Bosco e colaboradores acompanharam 23 homens com necrose óssea, a maioria na cabeça do fêmur, comparando cada paciente com seus próprios valores iniciais. Foram dois ciclos de 30 sessões a 2,5 ATA, com 90 minutos cada e intervalo de 30 dias entre os ciclos.
Os níveis no sangue de TNF-α e IL-6, citocinas que funcionam como mensageiros da inflamação e participam da reabsorção óssea, caíram de forma significativa ao longo do tratamento. O TNF-α passou de 111,87 para 74,46 pg/mL ao final dos dois ciclos. As espécies reativas de oxigênio, moléculas ligadas ao estresse oxidativo, subiram no início e depois retornaram aos valores basais. Os autores interpretam essa resposta como um condicionamento das defesas antioxidantes do organismo e relacionam a queda das citocinas às reduções de edema ósseo e de dor relatadas na literatura.
Na medicina esportiva, a indicação é individual
No esporte, a decisão de usar a câmara cabe ao médico que acompanha o atleta, após avaliação de cada caso. Os números apresentados aqui pertencem às populações estudadas: pacientes de trauma com esmagamento e adultos com necrose da cabeça do fêmur.
Atletas também recorrem à terapia com indicação médica. No blog, contamos como Bruno Lobo utilizou a oxigenoterapia hiperbárica na recuperação de uma ferida antes das Olimpíadas de 2024. Fora do esporte, relatamos as sessões do cantor Conrado após um grave acidente de carro.
Os três estudos descritos têm em comum quadros marcados por circulação deficiente e morte de tecido. Nesse terreno, a OHB atua junto com cirurgia, curativos, medicamentos e reabilitação. A Oxy Câmaras Hiperbáricas, fabricante brasileira de câmaras monoplace, acompanha essa produção científica para apoiar os serviços que oferecem a terapia.
Conclusão
Dois ensaios randomizados duplo-cegos registraram resultados favoráveis à oxigenoterapia hiperbárica como adjuvante em ortopedia. Nas lesões por esmagamento, houve mais cicatrização completa e menos novas cirurgias. Na necrose da cabeça do fêmur em estágio inicial, a dor diminuiu e houve recuperação óssea visível na ressonância. Um terceiro estudo, com pacientes de necrose óssea, mostrou redução de marcadores inflamatórios durante o tratamento. São evidências em expansão que abrem caminho para o uso criterioso da câmara em quadros com isquemia e necrose, sempre por indicação médica.
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Referências Científicas
• Bouachour G, et al. Hyperbaric oxygen therapy in the management of crush injuries: a randomized double-blind placebo-controlled clinical trial. J Trauma. 1996;41(2):333-9. PMID 8760546. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/8760546/
• Camporesi EM, et al. Hyperbaric oxygen therapy in femoral head necrosis. J Arthroplasty. 2010;25(6 Suppl):118-23. PMID 20637561. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20637561/
• Bosco G, et al. Hyperbaric oxygen therapy ameliorates osteonecrosis in patients by modulating inflammation and oxidative stress. J Enzyme Inhib Med Chem. 2018. PMC6171420. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC6171420/
Conteúdo informativo. Não substitui avaliação médica; a indicação da oxigenoterapia hiperbárica é ato médico.