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Blog · 14 de setembro de 2026

TcPO2: o dado que pode guiar a OHB em complicações por preenchedor

Equipe Oxy

O ácido hialurônico está entre os materiais mais utilizados em preenchimentos faciais, inclusive em regiões de grande fluxo sanguíneo, como o ângulo nasolabial, o dorso nasal e os lábios. Mesmo com injetores experientes, complicações vasculares raras podem acontecer, e a necrose cutânea por obstrução ou compressão arterial é uma das mais delicadas. Uma publicação na revista Annals of Medicine & Surgery propôs uma resposta objetiva para uma dúvida frequente das equipes de oxigenoterapia hiperbárica (OHB): quando começar e quando encerrar o tratamento nesses casos.

Paciente em sessão de oxigenoterapia hiperbárica com monitoramento da oxigenação da pele

O que é a TcPO2 e por que ela importa

A sigla TcPO2 designa a pressão transcutânea de oxigênio, ou seja, a medição da quantidade de oxigênio que efetivamente chega à pele, feita por sensores aplicados sobre a área avaliada. É um exame não invasivo, já consagrado em outro campo da medicina hiperbárica: a avaliação de feridas em pacientes com pé diabético.

Conduzido por Yang e colaboradores, do Departamento de Oxigênio Hiperbárico do Chinese PLA General Hospital, o trabalho parte de uma constatação prática. A decisão sobre indicar a OHB em suspeita de necrose por preenchedor costuma se apoiar na avaliação clínica visual, como alteração de cor da pele e ausência de enchimento capilar. Esses sinais são valiosos, mas dependem muito da experiência de quem conduz o caso. A proposta dos autores foi acrescentar a esse julgamento um número mensurável do próprio paciente.

Como a série de casos foi conduzida

O artigo descreve uma série de quatro casos de pacientes com suspeita de necrose cutânea após injeção de ácido hialurônico, atendidos entre novembro de 2022 e dezembro de 2023. Em todos, a TcPO2 foi medida antes e durante a condução do tratamento, adotando o mesmo limiar de referência usado em feridas diabéticas: valores abaixo de 40 mmHg em ar ambiente indicam hipóxia tecidual, isto é, oferta insuficiente de oxigênio ao tecido.

A lógica aplicada foi direta:

  • Quando a TcPO2 confirmou hipóxia, a OHB foi indicada como parte do cuidado, e o próprio valor da TcPO2 passou a ser acompanhado ao longo das sessões para orientar o momento de suspender o tratamento.

  • Quando a TcPO2 estava acima de 40 mmHg, sem sinal de hipóxia relevante, os pacientes seguiram com o tratamento padrão, que inclui compressas, hialuronidase (enzima que dissolve o ácido hialurônico) quando indicada, entre outras condutas.

O que os quatro pacientes mostraram

Nos pacientes que apresentavam TcPO2 abaixo do limiar, o tratamento com OHB elevou os valores para acima de 200 mmHg, resultado que os autores interpretam como correção da hipóxia tecidual local. Esse é o dado mais objetivo da publicação: a medição mostrou, em números, o ganho de oxigenação da pele durante a terapia, exatamente no grupo de pacientes em que o tecido estava mais carente de oxigênio.

Os quatro pacientes acompanhados, tratados ou não com OHB, apresentaram boa evolução clínica ao final do seguimento. Por se tratar de uma série de quatro casos, o artigo descreve a experiência daqueles pacientes, e o que ela demonstra é justamente o que os autores se propuseram a testar: a TcPO2 funcionou como critério objetivo para separar quem tinha hipóxia documentada, orientar o início das sessões e definir o momento de encerrá-las. É uma aplicação prática que já pode apoiar a decisão clínica no dia a dia das equipes hiperbáricas.

Personalizar o tratamento com dados mensuráveis

Um dos temas recorrentes na literatura sobre OHB aplicada a complicações estéticas é a construção de protocolos padronizados: número de sessões, pressão empregada e duração total do tratamento. Ferramentas objetivas como a TcPO2 têm potencial para apoiar essas escolhas com informação quantitativa do próprio tecido afetado, complementando a inspeção visual da pele.

Na prática, isso aproxima a conduta em complicações por preenchedor de uma lógica que já é rotina em outras indicações da medicina hiperbárica. Na oxigenoterapia hiperbárica, o paciente respira oxigênio a 100% em ambiente pressurizado, conforme o protocolo definido pelo médico, e a resposta do tecido pode ser acompanhada ao longo das sessões. Como em qualquer indicação, trata-se de um recurso adjuvante dentro de um plano multidisciplinar, tema que também abordamos no conteúdo sobre a OHB como tratamento adjuvante na visão de um médico infectologista.

O papel da avaliação médica

A indicação de OHB em suspeita de comprometimento vascular é ato médico e depende de diagnóstico, de avaliação do tempo de evolução e das condutas já adotadas. A TcPO2 entra como mais um elemento de apoio a essa decisão, ao lado do exame clínico e do acompanhamento contínuo da ferida. O interesse por esse tipo de monitoramento cresce junto com o uso da câmara hiperbárica em quadros de cicatrização, como no caso da recuperação de ferida do atleta Bruno Lobo.

Conclusão

A contribuição central da publicação de Yang e colaboradores é mostrar, nos quatro casos descritos, que a TcPO2 pode funcionar como indicador objetivo e prático para apoiar decisões sobre a OHB em suspeita de necrose cutânea por ácido hialurônico, tanto para indicar o início quanto para definir o encerramento das sessões. Nos pacientes com hipóxia documentada, a oxigenoterapia hiperbárica elevou a oxigenação da pele a níveis muito acima do limiar de referência, e a evidência em expansão sobre esse tipo de monitoramento abre caminho para protocolos cada vez mais personalizados na medicina hiperbárica.

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Referências Científicas

• Yang Q, Shi Z, Pan S, Li H. Transcutaneous Oxygen Tension-Guided Hyperbaric Oxygen Therapy for Preventing Skin Necrosis After Hyaluronic Acid Filler Injections. Ann Med Surg. 2024;86(7):3827–3832. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11230731/

Conteúdo informativo. Não substitui avaliação médica; a indicação da oxigenoterapia hiperbárica é ato médico.

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