Nas complicações vasculares causadas por preenchedores faciais, o tempo costuma ser o fator mais discutido: quanto antes a oclusão de um vaso é reconhecida e tratada, melhor tende a ser a evolução. Mas nem sempre o diagnóstico chega nas primeiras horas. Um relato de caso publicado no periódico BMJ Case Reports descreveu exatamente esse cenário, um quadro identificado apenas no quinto dia após a aplicação, e documentou o papel da oxigenoterapia hiperbárica (OHB) no manejo dessa paciente.

O caso descrito por Jalilian e colegas
O artigo, assinado por Jalilian, Hetz, Bostwick e Boet, relata o caso de uma mulher na casa dos 50 anos que recebeu ácido hialurônico nos dois sulcos nasolabiais (as linhas que vão do nariz ao canto da boca) e no queixo.
No mesmo dia da aplicação, ela já sentia dor e desconforto, sintomas inicialmente interpretados como um hematoma comum do procedimento. O quadro evoluiu com piora da dor, ulceração da pele e necrose da mucosa do lábio, ou seja, morte de tecido na parte interna do lábio. A paciente procurou o pronto-socorro apenas no quinto dia após a injeção, quando o comprometimento vascular foi finalmente identificado.
Segundo os autores, a literatura sobre complicações vasculares por preenchedor descreve sobretudo casos de apresentação precoce, tratados nas primeiras horas ou no primeiro dia. Isso deixa uma lacuna prática sobre como conduzir os quadros reconhecidos mais tarde.
A conduta adotada: hialuronidase e oxigenoterapia hiperbárica
Ainda no quinto dia, a paciente recebeu uma injeção de hialuronidase na região afetada. Essa enzima degrada o ácido hialurônico e é a medida estabelecida para dissolver o material que está obstruindo o vaso.
Em seguida, iniciou-se um protocolo de OHB com as seguintes características, conforme descrito no artigo:
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14 sessões diárias de oxigenoterapia hiperbárica.
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Sessões de 90 minutos a 2,5 ATA (atmosferas absolutas, medida da pressão aplicada dentro da câmara).
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Intervalos de ar a cada 30 minutos dentro de cada sessão, prática padrão adotada para reduzir o risco de toxicidade pelo oxigênio.
Na oxigenoterapia hiperbárica, o paciente respira oxigênio a 100% em ambiente pressurizado, conforme o protocolo definido pelo médico. Esse aumento da oferta de oxigênio dissolvido no plasma é o fundamento do uso da terapia em situações de hipóxia tecidual, isto é, de tecidos com suprimento de oxigênio comprometido.
O que foi observado na evolução
Ao longo do período de tratamento, a paciente apresentou melhora progressiva das lesões de pele e resolução quase completa da necrose de mucosa. Ao final do acompanhamento, restaram apenas hipoestesia discreta no lábio superior, uma redução leve da sensibilidade local, e pequenas cicatrizes pontuais, sem outros comprometimentos funcionais relevantes relatados.
Vale situar o peso dessa publicação: trata-se de um relato de caso único, que descreve a experiência de uma paciente, sem grupo de comparação. A hialuronidase e a OHB foram administradas de forma concomitante, e os próprios autores registram que a contribuição isolada de cada uma não pode ser separada nesse desenho. O que o relato documenta com clareza é uma evolução favorável nessa paciente, com o protocolo hiperbárico descrito em detalhe.
Por que documentar o protocolo faz diferença
Os autores dirigem uma crítica construtiva à literatura da área: muitos trabalhos que mencionam o uso de OHB em oclusão vascular por preenchedor informam pouco sobre o protocolo empregado, como o momento de início da terapia, a duração e a pressão utilizada. Sem esses parâmetros, fica mais difícil para outros profissionais tomarem decisões apoiadas em evidência.
Por isso, o relato dá atenção especial ao registro de quando a OHB começou, quantas sessões foram feitas, em que pressão e com qual duração. Esse tipo de descrição detalhada é o que permite comparar experiências entre serviços e, aos poucos, construir referências práticas mais sólidas. A rastreabilidade dos ciclos, presente na plataforma digital das câmaras OXY 800 e OXY 1000, segue a mesma lógica de registro preciso do que foi entregue em cada sessão.
A OHB como terapia adjuvante
O artigo é explícito ao posicionar a oxigenoterapia hiperbárica como terapia adjuvante, ou seja, um complemento às condutas já estabelecidas, como a hialuronidase, e não uma substituta das demais medidas necessárias. Esse enquadramento acompanha o que a medicina hiperbárica pratica em outras áreas, tema que já abordamos na entrevista com o médico infectologista sobre a OHB como tratamento adjuvante.
Considerando o perfil de segurança da OHB, os autores sugerem que profissionais da estética avaliem essa modalidade de forma mais deliberada diante de complicações semelhantes, sempre com indicação médica. A proposta é apresentada como sugestão derivada da experiência relatada.
A lógica de corrigir a hipóxia em tecidos ameaçados aparece também em outras situações isquêmicas. Em relato de caso publicado na Undersea & Hyperbaric Medicine, um paciente de 17 anos com lesão grave por explosão em membro inferior foi submetido a 40 sessões de OHB associadas a cuidados com a ferida, antibioticoterapia e cirurgias reconstrutivas, com recuperação do membro sem amputação. São contextos clínicos distintos, mas ambos ilustram o uso hospitalar da terapia em tecidos sob risco, assunto que também tratamos ao comentar o tratamento em câmara hiperbárica após acidente grave.
Conclusão
O relato de Jalilian e colegas acrescenta um dado prático valioso ao debate sobre complicações vasculares por preenchedores: mesmo com o diagnóstico feito no quinto dia, a combinação de hialuronidase e 14 sessões de OHB a 2,5 ATA acompanhou uma recuperação quase completa nessa paciente. É evidência inicial favorável, com protocolo bem documentado, que amplia a discussão sobre a janela de oportunidade para considerar a oxigenoterapia hiperbárica como adjuvante nesses quadros. A indicação, em qualquer cenário, é sempre uma decisão médica.
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Referências Científicas
• Jalilian F, Hetz SP, Bostwick J, Boet S. Hyperbaric Oxygen Therapy for Treatment of a Late Presenting Ischaemic Complication From Hyaluronic Acid Cosmetic Filler Injection. BMJ Case Rep. 2022;15(7):e249190. Disponível em: pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9263929/
• Hyperbaric oxygen therapy for severe blast injury of lower extremity after terrorist attack: case report. Undersea & Hyperbaric Medicine. PMID 31154688. Disponível em: pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31154688/
Conteúdo informativo. Não substitui avaliação médica; a indicação da oxigenoterapia hiperbárica é ato médico.