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Blog · 22 de julho de 2026

Reabilitação pós-AVC: o que um novo estudo mostra sobre oxigenoterapia e treino cognitivo

Equipe Oxy

O Acidente Vascular Cerebral (AVC) é uma das principais causas de incapacidade no mundo. Quando se fala em reabilitação, a primeira imagem costuma ser a da fisioterapia motora, com o paciente reaprendendo a andar ou recuperando movimentos do braço. Existe, porém, um outro lado da recuperação que recebeu menos atenção ao longo dos anos: o comprometimento cognitivo. Déficits de memória, atenção, orientação e função executiva atingem parcela significativa dos sobreviventes de AVC e afetam diretamente a capacidade de realizar tarefas básicas do dia a dia.

Um ensaio clínico randomizado publicado em 2026 no Journal of NeuroEngineering and Rehabilitation avaliou se combinar duas abordagens, a oxigenoterapia hiperbárica e o treino cognitivo computadorizado, traria ganhos maiores do que cada intervenção isolada em pacientes com comprometimento cognitivo pós-AVC.

Paciente em reabilitação neurológica ao lado de câmara hiperbárica monoplace Oxy em ambiente clínico

Por que a cognição importa tanto na recuperação

Os déficits cognitivos após um AVC não são um detalhe secundário. Eles comprometem a capacidade da pessoa de seguir orientações médicas, administrar medicações e cuidar da própria higiene. Isso repercute na qualidade de vida e, segundo a literatura, também na sobrevida a longo prazo.

A oxigenoterapia hiperbárica (OHB) consiste na respiração de oxigênio puro em ambiente pressurizado acima da pressão atmosférica, sempre indicada e acompanhada por médico. Já o treino cognitivo computadorizado utiliza tarefas de computador para exercitar funções mentais específicas. A hipótese dos pesquisadores era de que unir as duas estratégias poderia somar efeitos.

Como o estudo foi conduzido

A pesquisa foi realizada em um único centro na China, com 116 pacientes, a maioria com AVC hemorrágico. Os participantes foram divididos aleatoriamente em quatro grupos:

  • tratamento padrão isolado, com medicação, controle de pressão e glicemia e reabilitação cognitiva convencional;

  • tratamento padrão associado à OHB;

  • tratamento padrão associado ao treino cognitivo computadorizado;

  • tratamento padrão associado à OHB e ao treino cognitivo, combinados.

Todos os grupos passaram por 20 sessões ao longo de quatro semanas, cinco vezes por semana. O protocolo de OHB envolveu sessões de 100 minutos com oxigênio a 100% sob pressão. O treino cognitivo empregou duas tarefas comuns na pesquisa da área: uma voltada ao controle inibitório, em que o participante reage a certos estímulos e se contém diante de outros, e outra de memória de trabalho, em que ele reconhece se um estímulo visual é igual ao apresentado antes.

O que foi medido

Os pesquisadores avaliaram a cognição global pelo Mini Exame do Estado Mental (MMSE), um dos testes cognitivos mais usados no mundo, e a independência para atividades básicas pelo Índice de Barthel. Também aplicaram uma técnica de imagem chamada espectroscopia funcional por infravermelho próximo (fNIRS), que observa a atividade e a conectividade de regiões do córtex pré-frontal, área ligada às funções executivas mais complexas.

O que os pesquisadores encontraram

O grupo que recebeu a combinação de OHB e treino cognitivo apresentou melhoras significativamente maiores do que os demais tanto na pontuação total do MMSE, incluindo subdomínios como orientação, registro, atenção, memória e habilidades visuoespaciais, quanto no Índice de Barthel.

Os exames de imagem mostraram aumento na conectividade entre duas regiões do córtex pré-frontal esquerdo. Essa mudança se correlacionou estatisticamente com a melhora cognitiva observada, o que sugere uma possível base neurológica para o efeito combinado das duas intervenções.

Vale registrar que esse achado dialoga com outras investigações sobre OHB e cognição. Em adultos saudáveis em envelhecimento, um ensaio randomizado descreveu ganhos em atenção, velocidade de processamento e funções executivas associados a mudanças regionais no fluxo sanguíneo cerebral (Aging, 2022). São contextos clínicos distintos, mas ambos apontam para mecanismos ligados à oxigenação e à atividade cortical.

O que isso significa na prática

Os próprios autores enquadram o resultado como suporte preliminar para estratégias multimodais de reabilitação e reconhecem limitações relevantes. O estudo foi feito em um único centro, com amostra relativamente pequena e sem avaliação de efeitos a longo prazo. Além disso, o MMSE tem sensibilidade limitada para funções executivas mais complexas. Por isso, os pesquisadores pedem estudos multicêntricos maiores, com acompanhamento mais longo, para confirmar os achados.

Ainda assim, o trabalho ilustra um princípio útil para quem atua com reabilitação neurológica ou acompanha um familiar em recuperação: a resposta cognitiva costuma ser melhor com abordagens combinadas do que com intervenções isoladas. Esse mesmo raciocínio aparece em relatos sobre a OHB como terapia adjuvante em outros contextos neurológicos, tema que já abordamos ao noticiar a mesa dedicada à oxigenoterapia hiperbárica no maior congresso de vascular da América Latina e ao acompanhar casos de recuperação após trauma, como o do cantor sertanejo Conrado após grave acidente de carro.

É fundamental sublinhar que qualquer protocolo terapêutico deve ser definido e acompanhado por neurologistas e pela equipe de reabilitação responsável pelo caso. A oxigenoterapia hiperbárica é tratamento adjuvante, e sua indicação é ato médico.

Conclusão

O ensaio publicado no Journal of NeuroEngineering and Rehabilitation sugere que unir oxigenoterapia hiperbárica e treino cognitivo pode ampliar os ganhos de cognição global e de independência funcional após o AVC, com uma possível correlação neurológica no córtex pré-frontal. Trata-se de evidência inicial e promissora, que ainda depende de confirmação em estudos maiores e mais longos. Para profissionais e famílias, o valor prático está em olhar a reabilitação cognitiva com a mesma seriedade dedicada à reabilitação motora.

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Referências Científicas

• Liu J, Han T, Yan C, Ma Q, Yuan L, Ge S, Xu X, Liu X. Hyperbaric oxygen therapy combined with computerized cognitive training improves global cognition and functional independence post-stroke: a randomized controlled trial. Journal of NeuroEngineering and Rehabilitation. 2026. https://doi.org/10.1186/s12984-026-01992-x

• Cognitive enhancement of healthy older adults using hyperbaric oxygen: a randomized controlled trial. Aging (Albany NY). 2022. PMID 32589613. Ver no PubMed

Conteúdo informativo. Não substitui avaliação médica; a indicação da oxigenoterapia hiperbárica é ato médico.

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