A artrite reumatoide é uma doença autoimune crônica que mantém as articulações em estado de inflamação persistente, provocando dor, inchaço e rigidez. Sem tratamento adequado, esse processo pode evoluir para deformidades e perda de função articular. É uma das condições reumatológicas mais estudadas do mundo, e o arsenal terapêutico disponível hoje resulta de décadas de pesquisa. Ainda assim, a busca por abordagens complementares continua ativa, e um estudo experimental publicado em 2024 colocou a oxigenoterapia hiperbárica lado a lado com medicamentos consolidados em um modelo animal da doença.

O tratamento convencional da artrite reumatoide
O manejo da artrite reumatoide costuma se apoiar nos medicamentos modificadores do curso da doença, conhecidos pela sigla inglesa DMARDs (disease-modifying anti-rheumatic drugs). Nesse grupo estão os biológicos, como o etanercepte, que bloqueia uma proteína inflamatória chamada TNF-alfa , e os sintéticos, como a leflunomida.
Esses fármacos têm eficácia estabelecida na redução da atividade inflamatória, mas podem estar associados a efeitos colaterais relevantes. É justamente esse equilíbrio entre benefício e tolerabilidade que motiva pesquisadores a investigar estratégias adjuvantes, ou seja, recursos usados em complemento ao tratamento principal, nunca em substituição a ele.
O que o estudo experimental investigou
O trabalho foi publicado na revista Clinical and Experimental Pharmacology and Physiology , por Hallak e colaboradores, em 2024. O objetivo declarado pelos autores era verificar a efetividade de combinar DMARDs com oxigenoterapia hiperbárica na redução da inflamação em um modelo de artrite reumatoide em ratos.
O desenho do experimento seguiu etapas bem definidas:
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56 ratos machos Sprague-Dawley , uma linhagem amplamente utilizada em pesquisa biomédica, foram divididos em sete grupos.
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A artrite foi induzida com adjuvante completo de Freund , substância clássica para gerar modelos experimentais de doenças autoimunes.
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Alguns grupos receberam oxigenoterapia hiperbárica, outros receberam etanercepte ou leflunomida, isoladamente ou em combinação.
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O tratamento começou no décimo dia após a indução da doença e foi mantido por 18 dias .
Para medir os resultados, os pesquisadores acompanharam o inchaço das patas, indicador direto da atividade inflamatória articular, e realizaram radiografias das articulações antes e depois das intervenções. Também dosaram dois marcadores inflamatórios, o TNF-alfa e a interleucina-1 beta (IL-1β) , por ensaio imunoenzimático (ELISA), além de análise histológica dos tecidos.
Os achados relatados pelos autores
Segundo o artigo, todos os grupos tratados apresentaram redução significativa nos escores de artrite, no inchaço das patas e nos níveis de TNF-alfa e IL-1β. As imagens radiográficas mostraram melhora na estrutura articular, e a análise histopatológica indicou menos inflamação e menos anormalidades de colágeno.
Um ponto merece atenção: a combinação de DMARD com oxigenoterapia hiperbárica produziu efeitos semelhantes aos das terapias isoladas , sem superioridade demonstrada da associação. Os próprios autores interpretam esse resultado como sinal de uma abordagem potencialmente mais segura para melhorar desfechos nos animais estudados, uma vez que efeitos comparáveis foram obtidos em diferentes arranjos terapêuticos.
Esse tipo de equivalência tem valor científico próprio. Quando uma intervenção não medicamentosa acompanha o desempenho biológico de fármacos consolidados em um modelo experimental, abre-se uma linha legítima de investigação sobre mecanismos e sobre possíveis combinações futuras.
Por que estudar mecanismos anti-inflamatórios
O interesse pela oxigenoterapia hiperbárica em doenças inflamatórias tem base fisiológica. Na oxigenoterapia hiperbárica, o paciente respira oxigênio a 100% em ambiente pressurizado, conforme o protocolo definido pelo médico, o que eleva de forma expressiva a quantidade de oxigênio dissolvida no plasma e disponível nos tecidos.
Outras pesquisas pré-clínicas já exploraram como essa hiperóxia interfere em vias inflamatórias. Em modelo de lesão medular aguda em ratos publicado na revista Spine, a oxigenoterapia hiperbárica reduziu a expressão das proteínas HMGB1 e NF-κB, ambas ligadas à sinalização inflamatória, com melhora nos escores de função neurológica nos dias 7 e 14 após a lesão. São dados animais, e não evidência clínica, mas ajudam a explicar por que a modulação da inflamação segue sendo investigada em contextos variados, do sistema nervoso às articulações. Já escrevemos sobre outra frente dessa pesquisa em doença de Parkinson e o papel da oxigenoterapia hiperbárica.
O que um modelo animal pode e não pode dizer
Aqui está a fronteira mais importante do texto. Um estudo em ratos, mesmo bem conduzido e com modelo validado, está em estágio inicial da cadeia de investigação científica. A resposta imunológica e inflamatória desses animais não é diretamente equivalente à de uma pessoa com artrite reumatoide, e os resultados obtidos em bancada não autorizam qualquer extrapolação para o tratamento humano da doença.
Portanto, nada nesse estudo altera as condutas clínicas atuais. O manejo da artrite reumatoide deve permanecer sob responsabilidade do reumatologista, orientado pelas diretrizes vigentes e pelo acompanhamento individualizado.
O que a pesquisa entrega é outra coisa, igualmente valiosa: um passo metodológico que compara diretamente uma intervenção adjuvante com fármacos de referência, gerando hipóteses testáveis para etapas seguintes. Em indicações já reconhecidas, como feridas complexas e infecções graves, a oxigenoterapia hiperbárica é utilizada como tratamento adjuvante prescrito por médico, tema que detalhamos no conteúdo sobre oxigenoterapia hiperbárica como tratamento adjuvante para pacientes do infectologista.
Conclusão
O estudo publicado em Clinical and Experimental Pharmacology and Physiology mostra que, em ratos com artrite induzida, a oxigenoterapia hiperbárica acompanhou o desempenho anti-inflamatório de etanercepte e leflunomida, com redução de inchaço, de marcadores inflamatórios e de alterações teciduais. É um achado promissor no plano da ciência básica, que pode orientar novas investigações sobre mecanismos e combinações terapêuticas.
Para pacientes, a leitura correta é de expectativa informada, não de mudança de tratamento. A pesquisa em medicina hiperbárica avança justamente por esse caminho, do modelo experimental ao ensaio clínico, e cada etapa bem descrita amplia o conhecimento disponível para futuras decisões médicas.
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Referências Científicas
• Hallak M, İnal A, Baktır MA, Atasever A. Comparison of disease-modifying anti-rheumatic drugs and hyperbaric oxygen therapy in the experimental model of rheumatoid arthritis in rats. Clinical and Experimental Pharmacology and Physiology. 2024. PMID 38965677. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/1440-1681.13906
• Hyperbaric oxygen alleviates experimental (spinal cord) injury by downregulating HMGB1/NF-κB expression. Spine. PMID 24335635.
Conteúdo informativo. Não substitui avaliação médica; a indicação da oxigenoterapia hiperbárica é ato médico.