A radioterapia é parte central do tratamento do câncer de mama. Segundo o estudo analisado neste post, cerca de 68% das mulheres com a doença passam por ela. Para uma parcela das pacientes, porém, os efeitos da radiação continuam depois do fim do tratamento oncológico. Dor, inchaço e endurecimento do tecido podem surgir ou persistir por meses e até anos. É a chamada toxicidade tardia da radioterapia. Um estudo de coorte com 1.005 pacientes tratadas na Holanda, publicado no periódico Breast Cancer Research and Treatment, avaliou como essas mulheres evoluíram após a oxigenoterapia hiperbárica (OHB) usada como terapia adjuvante.

O que é a toxicidade tardia da radioterapia
A toxicidade tardia reúne sintomas que aparecem ou permanecem muito tempo depois das sessões de radiação. Entre eles estão dor na mama ou na parede torácica, inchaço da mama ou do braço e limitação dos movimentos do braço. Também podem ocorrer fibrose (endurecimento do tecido por excesso de cicatrização) e telangiectasias (pequenos vasos dilatados visíveis na pele). Segundo os autores, a fibrose e a dor podem aumentar por pelo menos 10 anos após a radioterapia e comprometer a rotina e a qualidade de vida.
O manejo habitual inclui analgésicos, fisioterapia, terapia do linfedema e, em alguns casos, cirurgia reconstrutora. A OHB entra nesse cenário por um mecanismo descrito no próprio artigo: a combinação de oxigênio a 100% com pressão elevada induz neovascularização (formação de novos vasos sanguíneos) e estimula os fibroblastos, células que produzem colágeno durante a cicatrização. Na Holanda, a OHB para toxicidade tardia de diferentes tipos de tumor tem respaldo das seguradoras de saúde. Para quem quer entender o panorama mais amplo, publicamos um conteúdo sobre a oxigenoterapia hiperbárica no tratamento do câncer.
Como o estudo foi conduzido
A pesquisa foi liderada por Batenburg e colaboradores. Ela incluiu mulheres com câncer de mama e toxicidade tardia encaminhadas entre 2015 e 2019 a um instituto de OHB com cinco unidades na Holanda. Das 1.280 pacientes encaminhadas, 1.005 entraram na análise. Todas receberam no mínimo 20 sessões, e um médico confirmou antes do tratamento que os sintomas eram provavelmente decorrentes da radioterapia.
O protocolo padrão previa 40 sessões, uma por dia, cinco dias por semana, a 2,5 ATA (atmosferas absolutas, ou seja, 2,5 vezes a pressão ao nível do mar). Cada sessão durava 115 minutos, com quatro períodos de 20 minutos respirando oxigênio a 100%, intercalados por pausas. A análise dos dados ficou a cargo de pesquisadores independentes do Centro Médico Universitário de Utrecht.
Os sintomas foram medidos com dois questionários internacionais da EORTC (Organização Europeia para Pesquisa e Tratamento do Câncer), aplicados antes do tratamento, ao final dele e três meses depois:
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EORTC QLQ-C30: avalia qualidade de vida e funcionamento geral de pacientes oncológicos.
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Módulo BR23: foca em sintomas específicos da mama e do braço, como dor, inchaço e dificuldade de movimento.
Resultados em dor, sintomas e qualidade de vida
As pontuações vão de 0 a 100, e nas escalas de sintomas um número menor indica menos queixas. Todas as reduções abaixo foram estatisticamente significativas (p < 0,001, o que indica diferença muito improvável de ocorrer por acaso):
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Dor: caiu de 43,4 antes da OHB para 30,5 ao final e 29,7 três meses depois.
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Sintomas na mama: passaram de 44,6 para 29,4 ao final e 28,9 no acompanhamento.
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Sintomas no braço: foram de 38,2 para 26,0 ao final e 27,4 após três meses.
A dor intensa também recuou de forma expressiva. Entre as 749 pacientes com dados completos de dor na mama, 61,5% relatavam dor moderada ou intensa antes do tratamento, e esse percentual passou a 30,0% após a OHB. Das mulheres que começaram com dor intensa, 58,8% terminaram com dor leve ou discreta.
Todos os domínios de qualidade de vida melhoraram em relação ao início. O desempenho de papéis, que mede a capacidade de cumprir atividades do dia a dia, subiu de 62,7 para 73,2 em três meses. O funcionamento social passou de 74,2 para 82,3 no mesmo período.
Fatores ligados a uma resposta melhor
O estudo identificou dois fatores associados ao alívio da dor. Entre as pacientes que fumavam durante o tratamento, 45% tiveram boa resposta, contra 61% das que nunca fumaram ou haviam parado. Os autores sugerem que o cigarro pode danificar os novos vasos formados com a terapia. O tempo desde a radioterapia também contou: foi de 22 meses, em mediana, no grupo com boa resposta e de 17,5 meses no grupo com dor persistente.
Segurança do tratamento
A maioria dos efeitos colaterais foi leve e transitória. O mais comum foi a miopia temporária (57,3%), que em geral desaparece nos primeiros meses após o tratamento. O barotrauma leve, um desconforto causado pela diferença de pressão, geralmente no ouvido, ocorreu em 17,8%. Efeitos moderados ou graves foram registrados em apenas 3,2% das pacientes. Para os autores, esses dados confirmam a OHB como tratamento seguro nessa população.
A indicação cabe sempre ao médico, e a OHB atua em conjunto com a equipe de oncologia, sem substituir nenhuma etapa do tratamento oncológico. Explicamos esse papel em outro post sobre a OHB como tratamento adjuvante.
Como interpretar o desenho do estudo
Trata-se de um estudo de coorte, no qual todas as participantes receberam OHB e foram acompanhadas ao longo do tempo, sem grupo de comparação. Os autores descrevem esse desenho com transparência e já conduzem um ensaio randomizado (NCT04193722), que compara a OHB ao cuidado usual em pacientes com câncer de mama. O ponto forte da coorte é a escala: mais de mil pacientes, questionários validados e análise feita por equipe independente.
A fase aguda, que ocorre durante a própria radioterapia, é um cenário diferente. Um estudo piloto randomizado com 30 pacientes testou a OHB a 1,5 ATA na dermatite induzida por radiação (inflamação da pele durante o tratamento). A incidência de dermatite grau 2 ou superior foi de 73,3% nos dois grupos, e a terapia foi bem tolerada, sem eventos adversos graves. As pacientes tratadas com OHB mostraram tendência de menor desconforto na pele, ainda sem significância estatística. Na toxicidade tardia, com protocolo de 2,5 ATA, a coorte holandesa registrou os ganhos expressivos de dor e qualidade de vida descritos acima.
Conclusão
O estudo de Batenburg e colaboradores acompanhou 1.005 pacientes com toxicidade tardia da radioterapia para câncer de mama e registrou queda da dor, alívio dos sintomas na mama e no braço e melhora de todos os domínios de qualidade de vida, mantidos três meses após a OHB. O perfil de segurança foi favorável, com efeitos moderados ou graves em 3,2% das pacientes. São resultados favoráveis que abrem caminho para a OHB como aliada adjuvante no cuidado dessas mulheres, dentro de um plano definido pelo médico. A Oxy, fabricante brasileira de câmaras hiperbáricas monoplace, acompanha de perto essa evidência em expansão.
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Referências Científicas
• Batenburg MCT, Maarse W, van der Leij F, Baas IO, Boonstra O, Lansdorp N, Doeksen A, van den Bongard DHJG, Verkooijen HM. The impact of hyperbaric oxygen therapy on late radiation toxicity and quality of life in breast cancer patients. Breast Cancer Res Treat. 2021;189(2):425–433. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC8357739
• Efficacy and safety of hyperbaric oxygen therapy for radiation-induced dermatitis in patients with breast cancer: a randomized pilot study. DOI: 10.1007/s00520-025-09463-0. PMID: 40259026. URL: https://doi.org/10.1007/s00520-025-09463-0
Conteúdo informativo. Não substitui avaliação médica; a indicação da oxigenoterapia hiperbárica é ato médico.