A ruptura espontânea da bexiga é uma emergência urológica rara e potencialmente grave. Segundo a literatura revisada pelos autores do caso aqui descrito, o atraso no diagnóstico pode ser fatal, com mortalidade relatada de até 8%. O tratamento habitual costuma ser invasivo: fechamento cirúrgico da lesão ou cistectomia (retirada da bexiga). Um relato de caso publicado em 2024 na revista IJU Case Reports, assinado por urologistas do Departamento de Urologia do Shizuoka General Hospital, no Japão, descreve um caminho menos invasivo. A equipe combinou o debridamento transuretral (remoção de tecido morto por via da uretra) com a oxigenoterapia hiperbárica, conhecida pela sigla em inglês HBOT, e obteve um desfecho favorável.

Uma paciente com alto risco cirúrgico
A paciente era uma mulher na faixa dos 80 anos com atrofia de múltiplos sistemas, uma doença neurodegenerativa que compromete progressivamente várias funções do organismo. Pouco antes, ela havia passado por cirurgia para fixar uma fratura no fêmur, na região do trocânter, próxima ao quadril, e estava praticamente acamada.
Ela procurou atendimento por dor no baixo ventre. Ao ser sondada, apresentou urina com odor intenso, semelhante a fezes, o que levantou a suspeita de comunicação entre bexiga e intestino. No hospital, chegou com febre de 38,8 °C e exames de sangue indicando infecção importante.
A tomografia computadorizada mostrou a ruptura no topo da bexiga, com extravasamento de urina para a parede abdominal. Pelo estado geral debilitado, a equipe optou por tratamento conservador, com sonda uretral e antibióticos na veia.
Complicações ao longo da internação
Uma laparoscopia exploratória (cirurgia por pequenos cortes, com câmera) chegou a ser planejada. No terceiro dia de internação, porém, a paciente contraiu COVID-19 e precisou de isolamento. A laparoscopia e as opções cirúrgicas foram então abandonadas.
No sétimo dia surgiu um abscesso sob a pele da região acima do púbis, causado pelo vazamento de urina da bexiga mal cicatrizada. A equipe drenou o abscesso, retirou resíduos da bexiga e trocou a sonda por uma de calibre maior. A febre cedeu e os marcadores de inflamação caíram.
Mesmo com essa melhora, a ferida abaixo do umbigo evoluiu para uma fístula vesicocutânea, isto é, uma comunicação anormal entre a bexiga e a pele. Por ela vazavam de 200 a 800 mL de urina por dia.
A estratégia combinada com a câmara hiperbárica
A cistoscopia (exame que examina o interior da bexiga com uma câmera introduzida pela uretra) mostrou a parede da fístula revestida por tecido pálido e isquêmico, ou seja, com pouca circulação e sugestivo de necrose. Um novo exame, 20 dias depois, mostrou pouca mudança.
Como o quadro clínico da paciente tornava difícil uma cirurgia convencional, a equipe decidiu associar duas medidas:
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Debridamento transuretral da fístula: feito sob anestesia raquidiana, removeu o tecido desvitalizado até expor gordura bem vascularizada. O procedimento durou 50 minutos, com perda de sangue desprezível.
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Oxigenoterapia hiperbárica: iniciada dois dias depois, em 20 sessões diárias de 1,5 hora, a 2 atm (duas vezes a pressão atmosférica ao nível do mar).
Na oxigenoterapia hiperbárica, o paciente respira oxigênio a 100% em ambiente pressurizado, conforme o protocolo definido pelo médico. Nesse caso, a terapia atuou como adjuvante, somada ao debridamento, aos antibióticos e à drenagem urinária.
Os resultados observados
A resposta da paciente foi rápida. O vazamento de urina pela ferida cessou no quarto dia de oxigenoterapia hiperbárica. Ao final das sessões, a equipe confirmou o fechamento da pele e da fístula, além da regeneração da mucosa da bexiga, documentada por nova cistoscopia.
A paciente recebeu alta 63 dias após a internação, mantendo o uso de sonda urinária. Os autores destacam que a estratégia se diferenciou pela boa tolerância em comparação às abordagens cirúrgicas tradicionais para essa condição.
Como os autores explicam o efeito do oxigênio
Os pesquisadores relatam que o mecanismo preciso ainda está sendo desvendado. A explicação que apresentam é que a hiperoxigenação dos tecidos promovida pela HBOT modula diversas vias de sinalização celular. Com isso, estimula a produção de fatores de crescimento e favorece a cicatrização de tecidos que sofreram falta de circulação ou inflamação.
Esse raciocínio dialoga diretamente com o que foi visto no exame da paciente: uma fístula com tecido pálido e pouco irrigado, que não cicatrizava apenas com drenagem e antibióticos. Após o debridamento e as sessões na câmara, o tecido se fechou.
Segundo os autores, este é o primeiro caso relatado que combina debridamento transuretral e oxigenoterapia hiperbárica no tratamento de ruptura vesical espontânea com fístula vesicocutânea. Eles também mencionam a terapia de pressão negativa (curativo a vácuo) como outra opção a considerar.
Um registro que amplia o olhar sobre a terapia
Por se tratar de um relato de caso, o resultado descreve a experiência dessa paciente específica. Ainda assim, ele documenta de forma detalhada como a oxigenoterapia hiperbárica pode auxiliar como adjuvante na cicatrização de um tecido isquêmico, em um cenário em que a cirurgia convencional tinha risco elevado.
A cicatrização de feridas difíceis é um dos campos em que a terapia hiperbárica é mais conhecida. No blog, já mostramos como ela aparece em contextos de recuperação muito diferentes, como no caso do cantor Conrado após um grave acidente de carro e no uso pelo atleta Bruno Lobo antes das Olimpíadas de 2024. Cada situação tem indicação própria, sempre definida pelo médico.
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Conclusão
O relato publicado pela equipe de urologia do Shizuoka General Hospital descreve uma paciente idosa, com ruptura vesical espontânea e fístula de difícil cicatrização, tratada sem cirurgia aberta. A combinação de debridamento transuretral e 20 sessões de oxigenoterapia hiperbárica levou à interrupção do vazamento de urina no quarto dia e ao fechamento da fístula. Trata-se de um único caso, e ele abre caminho para a HBOT como recurso adjuvante em quadros urológicos complexos, quando a cirurgia tradicional representa risco elevado e a indicação é feita pelo médico.
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Referências Científicas
- Iijima H, Someya R, Tanaka E, Yamazaki M, Yokoi T, Takahashi T, Ueda M, Shiraishi Y, Yoshimura K. A case of spontaneous bladder rupture successfully conservatively treated with transurethral debridement and hyperbaric oxygen therapy. IJU Case Reports. 2024. PMID: 39224683. DOI: 10.1002/iju5.12749. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11366429/
Conteúdo informativo. Não substitui avaliação médica; a indicação da oxigenoterapia hiperbárica é ato médico.